Na última reportagem da série Tecendo Memórias Kaimbé, o IMBÉCORÁ destaca como o uso de ferramentas digitais e a produção de vídeos, fotos e textos ampliam a visibilidade da aldeia e apresentam histórias contadas pelos próprios indígenas.
Entre os povos indígenas, a tecnologia tem se mostrado uma aliada importante nos repasses de histórias e na luta por direitos. Na comunidade indígena Massacará, isso não é diferente. Em novembro de 2018, o cacique Anderson Kaimbé, 26, criou no Facebook uma página dedicada à publicação do cotidiano da comunidade. Hoje, a página se expandiu para outras plataformas digitais, levando informação em formato de vídeos, textos, fotos e documentários produzidos dentro da comunidade.
Anderson lembra que já utilizava suas próprias redes sociais para divulgar o cotidiano da comunidade, mas decidiu criar uma página exclusiva para o povo Kaimbé. Aos poucos, começaram a chegar seguidores, indígenas da própria comunidade, indígenas Kaimbé que vivem em outros estados e também não indígenas interessados na pauta. “Eu já usava o Facebook há muito tempo e sempre gostei de produzir vídeos e tirar fotos. Então, tive a ideia de criar a página do povo Kaimbé no Facebook. Lá, comecei a postar vídeos do toré (ritual presente na aldeia), imagens de momentos importantes e do cotidiano da comunidade, tudo com o objetivo de dar visibilidade ao povo Kaimbé”, relembra.


Há quatro anos, Anderson ocupa a posição de cacique dentro da aldeia. Para ele, o ambiente digital, atualmente, é uma extensão do território.
“Sofremos um apagamento histórico muito grande, e essas ferramentas são muito importantes, porque minha gente não conhece a nossa história. As redes sociais, para nós, também são uma forma de luta, para mostrar que estamos aqui, que existimos. Se você olhar o hino de Euclides da Cunha (cidade onde o povo está situado), não há nenhuma menção ao povo Kaimbé, que foi o primeiro habitante do território. Eles fazem referência à Pedra do Bendegó, que nem sei onde fica, mas sobre os Kaimbé nada é falado. Somos muito esquecidos. Então, criar as redes sociais foi uma maneira de enfrentar isso, de garantir que as pessoas conheçam a nossa história”, enfatiza a liderança.
Atualmente, seis comunicadores administram as páginas do Instagram e Facebook, e apenas Anderson produz conteúdos audiovisuais, como os documentários. Entre os comunicadores estão: Brenda Dantas Kaimbé, Davi Narciso Kaimbé, fundador do Movimento da Juventude Indígena Kaimbé (MOJIKA), Melrily Kaimbé (Aruanda), Samira Kaimbé e a autora da matéria.
Um levantamento feito dentro da comunidade, via formulário Google Docs, mostra como o uso das tecnologias e das redes sociais é amplo e diário, com destaque para a participação feminina. Veja os dados abaixo:

Com esses dados, podemos notar que as redes sociais vêm ocupando um papel importante na preservação da cultura e na troca de saberes dentro e fora da aldeia. Para Daniel Oliveira de Farias, 32, jornalista pela Universidade Federal da Bahia e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da mesma universidade, a luta indígena se estende para além das fronteiras físicas. Ele é um dos principais nomes a discutir o conceito de “demarcar telas”, uma ideia que conecta o ativismo político e comunicacional indígena ao território digital.
Segundo ele, a expressão nasce da transposição da luta pela terra, eixo histórico do movimento indígena, para os espaços virtuais. “A ideia de demarcar telas articula o território físico e o digital como partes inseparáveis da mesma experiência de luta e existência. Não dá mais para separar o real do virtual. O corpo, a imagem e o território estão entrelaçados”, explica.
De acordo com Daniel, essa visão reflete a forma como os comunicadores indígenas têm usado as redes sociais para fortalecer suas causas e reconstruir narrativas. “O ativismo digital permite disputar a história do Brasil. Por muito tempo, o encontro entre colonizadores e povos originários foi apresentado como algo pacífico, mas foi violento, foi extermínio. Hoje, comunicadores indígenas utilizam as plataformas para recontar essa história, para que o Brasil conheça os povos Kaimbé, Funiô, Kaingang e tantos outros”, diz.
Apesar do uso frequente das redes e internet entre os indígenas, dados do último Censo Demográfico de 2022 do IBGE mostra que o uso da tecnologia entre os povos indígenas no Brasil cresce, mas ainda enfrenta obstáculos estruturais significativos. O país tem 1,69 milhão de pessoas que se autodeclaram indígenas, o equivalente a 0,83% da população brasileira. Dessas, 53,9% vivem em áreas urbanas e 46% em áreas rurais, distribuídas em mais de 8,5 mil localidades indígenas, a maioria situada em Terras Indígenas reconhecidas oficialmente ou em processo de reconhecimento.
Quase metade das pessoas indígenas (44,5%) ainda vive em domicílios sem acesso à internet, enquanto na população geral o índice é de apenas 10,6%, aponta os dados do IBGE. Segundo a pesquisa, a falta de conexão está ligada a fatores como o custo do serviço, a ausência de infraestrutura de telecomunicações nas aldeias e a precariedade das moradias. Em muitas comunidades, o fornecimento de energia elétrica é instável ou inexistente, o que inviabiliza o uso contínuo de aparelhos eletrônicos.
No território indígena Massacará, por exemplo, o acesso à energia chegou através do programa do Governo Federal Luz para Todos, criado em 2003, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No território, foram identificadas duas redes de acesso à internet,TopNet e AcessoNet. Mesmo com internet disponível, o sinal das linhas telefônicas não foi identificado.
Novos espaços dentro do município
A comunicadora Brenda Dantas Kaimbé, 24, estudante de licenciatura da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), acredita que a tecnologia também abriu espaços para novas palestras dentro do município, mas ainda há o que melhorar. Segundo ela, essa conquista é coletiva e realiza o propósito inicial da criação da página. “Mesmo estando presentes nas redes, ainda falta convite, espaço e divulgação. Mas a importância disso está na visibilidade. Depois que começamos a nos articular aqui dentro, outras pessoas passaram a nos convidar para eventos. Quando comecei a postar sobre minhas participações, fui puxando outros, e virou uma corrente”, disse.

Brenda também participa da equipe de comunicação do Movimento Unidos dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (MUPOIBA), ela acrecenta da comunicação indígenas para divulgar eventos ou vitorias do povos indígenas. “No perfil do Mopoiba, por exemplo, a gente fez publicações sobre os vereadores que se reelegeram ou que ocuparam cargos pela primeira vez. Eu vejo as redes sociais como um avanço. Porque a gente não tem espaço na TV. É muito difícil. Já na internet, conseguimos mostrar mais, divulgar mais”, destaca.
Para Davi Pereira Kaimbé, 32, um dos criadores do MOJIKA, grupo criado com o intuito de manter a história do povo Kaimbé viva, os povos indígenas precisam utilizar as tecnologias de forma estratégica. Atualmente, o grupo realiza visitas a pontos importantes da aldeia para repassar saberes aos mais jovens e realizar ações na cidade. Todos esses conteúdos são publicados nas redes sociais do povo Kaimbé de forma dinâmica. “Se não praticarmos nossos costumes hoje, quem vai contar nossa história amanhã? A tecnologia ajuda a registrar, preservar e compartilhar a memória, mas também pode afastar os jovens se não houver mediação cultural. Precisamos equilibrar o digital com a vivência presencial, para que a cultura não se perca, e é isso que o MOJIKA faz”, enfatiza.

Vídeo sobre as ervas medicinais
O jornalista lembra que o ambiente digital abriu caminhos para novas vozes, mas também apresenta desafios. Daniel reconhece que as plataformas funcionam segundo uma lógica de individualização e monetização, muitas vezes contrária ao espírito coletivo dos povos indígenas. “As redes são estruturadas para destacar indivíduos, influenciadores, números de seguidores. Isso não condiz com a forma como os povos indígenas vivem. Nas aldeias, ninguém existe sozinho. É preciso disputar as plataformas com estratégias coletivas, que contem histórias da comunidade e fortaleçam vozes plurais”, enfatiza.
“A tecnologia tem seus prós e contras. Se usada a favor da cultura, é uma ferramenta poderosa. Podemos registrar falas dos mais velhos, guardar vídeos, fotos, depoimentos. Assim, as futuras gerações terão acesso a isso. Não só quem está no território, mas também quem está fora pode se conectar com nossa história”, salienta Davi.
O outro lado das redes
Apesar dos avanços da pauta indígena nesses espaços, nem todos os indígenas se engajam no movimento. Davi Kaimbé salienta que alguns jovens preferem não participar dos eventos culturais para ficar nas redes vendo outros tipos de conteúdos. “Ainda precisamos fortalecer a comunicação indígena. Alguns jovens aqui não se engajam como os outros e preferem coisas dos brancos em vez das indígenas”, pontua Davi.
A comunicadora Brenda também enfatiza uma preocupação com o uso das telas dentro da aldeia, mas ressalta a importância delas para a descolonização do pensamento dos não indígenas. “Apesar de a tecnologia ter chegado aqui por volta de 2010, ainda vejo ela como uma ferramenta pouco aproveitada nesse aspecto. Não digo que não é utilizada, porque muitos já usam, mas sinto falta de um uso voltado para o repasse da história — apenas umas cinco pessoas fazem isso. Os jovens não têm tanto interesse. As histórias acabam sendo repassadas só em momentos específicos, como celebrações ou eventos religiosos. A escrita e a gravação ainda são fracas aqui dentro. Sinto que há um engarrafamento nesse processo”, aponta.
Ao falar do futuro, ela destaca: “Falar de futuro é difícil. Tem dias que eu acordo achando que vamos conquistar o mundo. Em outros, acho que estamos retrocedendo. A juventude é minha maior preocupação. É uma montanha-russa de emoções. Porque, às vezes, a gente quer preservar, contar, registrar. Mas, enquanto um ou dois querem, tem três que não querem. Já perdemos muita coisa por não registrar. Meu avô dizia: ‘Queria escrever, mas só estudei até a quarta série, não lembro mais de muita coisa’.”
“Hoje temos tudo nas mãos: celular, redes sociais, domínio da escrita. Temos uma escola indígena estruturada, com professores e materiais. Mas falta interesse, falta consciência. Mesmo assim, já chegamos até aqui, depois de anos de colonização, de apagamentos. Eu tenho esperança em um futuro melhor e vamos continuar usando as redes para isso. Vamos continuar desmitificando os estereótipos que a população tem sobre nós”, conclui.
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