Na segunda reportagem da série Tecendo Memórias Kaimbé, o IMBÉCROÁ conta como foi o processo de reintrodução do toré e a importância da zabumba.
Uma das poucas tradições do povo indígena Kaimbé, localizado no município de Euclides da Cunha, no sertão da Bahia, que resistiu ao processo de colonização é o ritual da zabumba, presente tanto em celebrações religiosas da Igreja Católica quanto nas comemorações cotidianas da comunidade. Hoje, além de manter viva essa herança, os Kaimbé buscam também retomar o Toré, ritual sagrado que foi proibido durante a colonização.
Ninguém na comunidade sabe ao certo quando ou como a zabumba passou a fazer parte das tradições do território. Nem os mais velhos conseguem precisar sua origem, e tampouco há registros antropológicos que expliquem como o costume chegou até ali. O que se sabe é que a zabumba tocada entre os Kaimbé carrega influências musicais indígenas e africanas que moldaram a cultura brasileira.
“Eu aprendi só na vivência”, conta o zabumbeiro Bruno Kaimbé, 40 anos. “Na minha infância, a zabumba tocava mais nas festas, como a Festa da Trindade, no sábado e no domingo. Era pouco tempo no ano. Desde pequeno eu ficava olhando os mais velhos tocando, acompanhava de casa em casa. Fui aprendendo assim, no olhar e na curiosidade. Aprendi também um pouco de gaita, mas a caixa e a zabumba mesmo aprendi observando. Quando surgia uma oportunidade, eu tocava”, lembra.

Dentro da comunidade, a zabumba se entrelaça a outra tradição antiga, a da Bandeira, feita de retalhos de pano e levada à Igreja da Santíssima Trindade durante o Sábado dos Caboclos, festa religiosa que dura oito dias. Segundo os mais velhos, a prática vem de uma linhagem ancestral. “Essa tradição começou com a família Xandú, com a mãe ou a avó de Filomena. Foi passando de geração em geração: Zé Vitor, depois Lúcio, após a morte de dona Filomena. Hoje é algo da comunidade toda, mas começou como uma tradição familiar”, relata Bruno.
A reportagem acompanhou o cortejo da zabumba durante a XIX Feira de Cultura Kaimbé, realizada em setembro de 2024. Assim como nos festejos religiosos herdados dos colonizadores, como o novenário da Santíssima Trindade, padroeira da comunidade, a zabumba abre a programação da feira desde sua primeira edição, em 2005.
vídeo da zabumba , acesse aqui: https://drive.google.com/drive/folders/1JfY75xd_7hnKJVkSO77i19WzXGNjOEQX?role=writer
O trajeto parte do Colégio Estadual Indígena Dom Jackson Berenguer Prado e segue até a igreja, localizada no ponto mais alto da aldeia. Ao final do percurso, é Bruno quem toca o sino, anunciando a chegada da zabumba. “Eu já alcancei essa tradição. Não sei a data exata, mas, segundo meu pai, ela divide o dia em três partes: seis da manhã, meio-dia e seis da tarde. Às seis da manhã, a gente bate o primeiro pé de sino e dá seis toques; ao meio-dia, doze toques; e às dezoito horas, novamente seis”, explica. “Tem o sino da casinha e outro da Capela de São Vicente, o ‘pé de sino sem sino’, que também é parte da tradição”, completa.
“A zabumba é a tradição mais antiga que resistiu. Outras, como o Toré, a gente começou a retomar e aprofundar mais recentemente, mas a zabumba nunca se apagou. Ela vem de gerações, sem data certa, e representa uma herança viva da nossa cultura. Está presente na feira de cultura, no Sábado dos Caboclos, nas comemorações da retomada e até em almoços de família”, reflete Bruno.
E não importa a ocasião: a zabumba é sempre bem-vinda. “A zabumba fala com a gente, é tradição e pertencimento do nosso povo Kaimbé”, ressalta Gessa Dantas Kaimbé, 62, moradora da comunidade. A presença do instrumento ultrapassa as festas e os rituais: está nos momentos de alegria, de fé e também de despedida. “Até nas mortes tem pessoas que pedem para ser enterradas com a zabumba”, conta Gessa, emocionada. “Eu mesma quero, quando eu morrer, que meu caixão seja acompanhado com a zabumba.”

Ela se recorda de um único velório em que o desejo foi atendido: o de Filormina, conhecida como Filó, liderança que cuidava da bandeira do grupo. “Foi o velório mais bonito do mundo que eu já vi”, diz. No olhar de Jelsa, a zabumba é uma herança viva, elo entre as gerações. “Ela está em todos os lugares e a gente tem que dar o maior valor. Os meninos daqui são nota dez, todos pequenininhos e muito interessados. O que falta é só um reforço, uma capacitação, mas o talento eles já têm”, comenta.
A educação indígena tem papel fundamental na preservação da memória da zabumba. O professor e fundador do Movimento da Juventude Kaimbé (Mojika), Davi Narciso Kaimbé, 29, também cresceu imerso nas tradições da comunidade em Massacará. Assim como Bruno, ele aprendeu a tocar zabumba observando os mais velhos. Hoje, leva o instrumento para dentro da escola. “Aprendi sozinho. Mas há uns dez anos comecei a trabalhar como professor de identidade e cultura. Essa lógica de aprender só observando os mais velhos foi mudando. Fui o professor que levou as zabumbas para a sala de aula. Meus filhos também estudam na escola e estão aprendendo a tocar. Hoje temos até meninas tocando zabumba, caixa e gaita, o que antigamente não acontecia.”
O retorno do Toré
Um dos caciques mais antigos do território, Juvenal Kaimbé, 62, conta que no início dos anos 2000, logo depois da homologação do território, os indígenas começaram a retomar o Toré, dança sagrada e ancestral que havia sido proibida durante décadas. Para ele, aquele período marcou o início de uma resistência cultural organizada, em meio às tentativas de apagamento promovidas pela colonização. “Nos anos 90, com a ajuda de Lazinho (Cacique Kiriri) e outros líderes, retomamos o Toré no território”, recorda.
O antropólogo José Augusto Laranjeiras, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e presidente da Associação Nacional de Ação Indigenista (ANAI), comenta que a prática do toré dentro do território Kaimbé não era muito comum, mas foi ganhando espaço ao longo do tempo. “Nos anos 1980, os Kaimbé não faziam o toré. Todos os povos faziam toré; os Kaimbé, não. O toré foi uma ‘reintrodução’, entre aspas, do cacique Lázaro, que, por sua vez, foi buscar o toré com os Tuxá de Rodelas”, comenta.
“E o toré, na verdade, não é um espetáculo público, como se tornou. É um ritual de uso interno. Havia, sim, mestres do sagrado Kaimbé, digamos assim. Eu lembro que conheci, em São Paulo, a filha de Silvino, não sei se ainda é viva, que tinha sido uma grande mestra de ritmo”, lembra.
Mesmo assim, a prática ainda não é totalmente incorporada ao cotidiano da aldeia. Ela vem sendo fortalecida aos poucos, principalmente pela juventude reunida no Mojika. “O Mojika foi reformulado por volta de 2019–2020. Já existia um movimento da juventude Kaimbé. Na minha época, por volta de 2009–2010, começamos com esse movimento, mas ainda sem o nome Mojika; era chamado de grupo da juventude ou grupo do toré”, lembra Davi.

O grupo realiza o toré a cada quinze dias no Pau-Ferro da Ilha, lugar sagrado para a comunidade. Outros povos indígenas ajudaram nesse processo de retomada, mas, com o tempo, a dança ganhou características próprias dos Kaimbé. “Conforme fomos trabalhando nos torés quinzenais, percebemos que estávamos sempre cantando toantes de outros povos. Isso gerava certo desconforto. Então começamos a compor os nossos. Com isso, vieram também as pinturas corporais, os encontros no Pau-Ferro da Ilha e outros espaços. Em 2019, com a chegada das tecnologias e das redes sociais, sentimos a necessidade de criar um movimento que acolhesse essa juventude. Daí nasceu o Mojika: Movimento da Juventude Kaimbé”, explica.


Depois do Pau-Ferro, o ritual do Toré passou a ser praticado em outros locais. “Antes, a gente buscava lugares afastados, longe de barulho, para se concentrar. A prática era mais intensa. Depois começamos a fazer na igreja e no terreiro aqui embaixo, na saída da rua”, pontua Davi.
“Hoje também temos os próprios cantigos, os nossos trajes, as nossas vestes, e cada vez mais estamos conseguindo recuperar tudo o que perdemos durante o processo de colonização”, finaliza Davi.


